sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Lembranças de Rosas, de Mangas, de Ventos e de Mil Sóis

1. Arte na rua em São Paulo

Meados da década de 70; era o século XX ainda; o cenário: a cidade de São Paulo, uma megalópole subdesenvolvida no terceiro-mundo – não se falava ainda emergentes.
Traçado urbano confuso, ar e rios poluídos, trânsito caótico, alguns poucos quilômetros de metrô construídos, trens suburbanos e ônibus velhos, milhões no isolamento geográfico, cultural e político das periferias - exemplos da sandice humana; uma das mais confusas ocupações do espaço visual. Uma tecnocracia embrenhada nas entranhas de uma ditadura militar, que mal entrevíamos nas frestas criadas pelos jornalecos.
A esclerose interna da governança militar, a crise econômica que se desenhava na crise do dólar e do petróleo, abalou a prosperidade econômica da classe média, que conhecera o seu segundo surto de crescimento econômico e mobilidade social justamente na segunda ditadura militar explícita que o país vivia.
Descontentamentos sociais?... Talvez? Mais provocado pela impossibilidade de pagar a próxima prestação do BNH, do que qualquer demonstração de ‘consciência social’ – jamais gostei desta expressão. De todo modo, greves das elites operárias sindicalizadas.
Os filhos da classe média ascendiam às universidades públicas através de escola e cursinhos pré-vestibulares particulares ou escolas técnicas de nível médio. O ensino fundamental e médio, que nunca foram lá essas coisas, dava visíveis sinais de esclerose múltipla. Vive na UTI desde então. Destacavam-se alguns projetos pedagógicos: Escola de Aplicação da USP; Colégio Equipe, Colégio Iadê. Exeções que confirmavam a regra.
Mas havia algo no ar. A música popular brasileira , cronista da vida social de todas as épocas, a todo vapor cantava  a volta do irmão do Henfil, os muros, as pontes e a vontade de dançar e reinventava suas foramas. Jornais; muitos jornalecos, fanzines e revistas alternativas. O pai de todos: Pasquim, mas também, Bondinho, Movimento, Opinião, Versus; Voz Operária, Navilouca, Código, Almanaque, Cadernos de filosofia, Qrpo estranho, Boca, Balão, Cineolho, Arte em Revista. Eram muitos. Eram variados. Todas as opiniões e posturas políticas. Da esquerda conservadora stalinista, aos anarquistas libertários. Do esteticismo formalista à arte engajada. Poesia concreta e versos marginais.
Política, literatura, cinema, artes plásticas. No MAC e na galeria da ‘Globo’, a jovem arte contemporânea, nas bienais a experimentação ao lado da história. Nos cines clubes da cidade o cinema novo e o cinema marginal. No MASP o festival internacional de cinema, ensinava o passado que desconhecíamos e nos atualizava com as novidades. Pasolini e Tarkóvisky. Cine Bellas Artes. Muita experimentação, muita informação circulante.
Eu desenhado, pintando e fotografando no ateliê do Lasar Segall e nas sessões de modelo vivo na Pinacoteca. A paisagem e a  memória.



  Eu mentando em mim. Experimento os limites de meu corpo: Espaço Saíra Sete Cores – Ligia Clark e Roberto Freire juntos. Nostalgia do corpo coletivo. Abre-se a máquina do mundo: Deu vontade de participar.
Viagens Brasil a fora: Guairá, salto de sete quedas, Paraná. Interior de São Paulo. Maranhão, Goiás, Mato grosso, Minas, Rio de Janeiro, Brasília, Espírito Santo, Bahia, Rio Grande do sul. Nossa! É imenso. Oito mil quilômetros viajados e rodados. Não conheci quase nada. Conheci o mundo. É diverso e variado. 


 
O que fazer com esse espanto na alma?
Política? Passeatas? Vamos lá. Movimento estudantil: Grêmio; Pró-Ubes. Pró-Une. Estudantes secundaristas e universitários junto com a intelectualidade imitaram os operários do ABC e foram às ruas protestar. Protestos! Campanha pela anistia ampla geral e irrestrita. Borrachadas, cercos e invasões. A Polícia reagia e reprimia. Algumas prisões. A morte de Herzog e Alexandre. Os intelectuais e artistas exilados começam a voltar. Alguma coisa acontecia na esquina da Ipiranga com a São João. E perto de casa.
Poesia? Arte? Vamos lá? Tinha uma coleção de desenhos, fotos, escritos e algumas idéias. Mas... Aonde? Nas galerias e museus ancorados na mesmice modernosa? Os salões? Quem sabe? As JACs haviam encerrado atividades.
Na dúvida, a rua. Espalhei cartazes lambe-lambe em pequeno formato  pela cidade. Deitando sobre sacos de lixo na rua ou na ilha central da nova av. Paulista, que acabara de passar por uma reformulação de design pelas mãos e olhos do arquiteto Calduro. Fiz minhas primeiras performances. O amigo, Cláudio novaes, fotografou. As imagens transformadas em cartazes lambe-lambe voltaram para o lugar onde as performances foram  realizada

              
.



     Aprendi a primeira lição duchampiana sobre as artes: sem o aval do circuito das artes, antes, durante e depois do feito, nada do que fizeres é arte. Vamos procurar as brechas no circuito das artes (Sim, andava lendo Ronaldo de Brito na Malasartes). Arte Postal: exercícios de desenhos e poesias.



O ano era 1977, eu estava terminando o curso Técnico de Desenho de Comunicação. O colégio Iadê resolve inscrever seus alunos de terceiro ano na Bienal internacional, amarrados por um projeto interdisciplinar focado nas artes contemporâneas. Foi divertido. Aprendi que o bicho não era tão feio assim. Livre pensar é só pensar: Experimentar o experimental.
Fui fazer performance no X Salão de Arte Contemporânea de Piracicaba, 1978. Lia "Assim falava Zaratustra" de Nietzsche e o "Bailado do Deus Morto" de Flávio de Carvalho. Juntei alhos com bugalhos, pintei bandeiras brancas com frases tiradas dos dois livros. Espetei as bandeiras na praça central em frente à catedral da cidade. Esperava que as pessoas espontaneamente desfraldassem as bandeiras e lessem as frases. Fotografaria com a Polaroid as reações. A intenção era expor as fotos em um painel no salão. Não abdico das provocações nas ruas e recebo o aval do circuito, pensava ingenuamente. Ninguém desfraldou bandeiras. Fui expulso do salão.
1979, publiquei junto com o amigo Messias o único número do Fanzine PARANÓIA PLÁ, verso de Roberto Piva que tomamos emprestado. Reunia desenhos, fotos, poemas e o registro de uma performance realizada nos entremeios dos grandes respiradouros do metrô no Paraíso. (Hoje estes respiradouros tiveram sua altura reduzida, pois eram monstruosos.) 
Aprendi a segunda lição sobre o circuito das artes: Não queira público, a única coisa que obterá é sua indiferença.
Aprendi a terceira lição sobre o circuito das artes: se quer entrar limpe os pés, faça reverências. Cuidado para não mostrar a bunda.
Confuso, perambulava pelas ruas de São Paulo. Na Praça Benedito Calixto, no porão transformado em teatro a Lira Paulistana soava a nova música. Nos morros da vila Madalena e da vila Beatriz, os ateliês e, estúdios dos jovens artistas universitários. Na Rua Jaceguai o Oficina reabre suas portas: Uzyna/Uzona. Ponto 4, Riviera Bar, Cine Belas Artes, corujão do Cine Biju e as ladeiras do Bexiga, Bisteca no Bar da putas, bilhar e sopa maravilha na São João e o Redondo.
1980, li nas folhas que o  Sesc Anchieta iria realizar o “1º encontro de Arte brasileira independente”.
 Corro pra lá. Converso com Paulo Klein o realizador. Inscrevo meus postais para a exposição e ofereço minha ajuda para fazer o jornal programa. Combinamos papo sobre o assunto. No dia uma rapaziada estava lá oferecendo o mesmo. Conheci o Manga Rosa produções artísticas.



Rapaziada da simpática Mooca que depois de passarem pelo jornal do coro do Teatro Oficina e editar dois números do Fanzine ALIENARTE, abriram um escritório na Rua Augusta no qual editavam livros de poesia e literatura marginal, que eram vendidos nas ruas e bares da noite paulistana.
Naquele momento a vontade difusa de fazer algo interessante e participar do cenário artístico e cultural de São Paulo nos manteve unido. O Joca (Jorge Bassani), o Chico (Francisco Zorzete), o Ratinho (Edson Dias), o Márcio, e o Cabelo formavam a trupe. juntei-me a eles. Joca finalizava seu curso de arquitetura com um trabalho sobre o espaço urbano. Lia e discutia coisas que me interessavam. 
Chico buscando incessantemente os meios para manter o Manga Rosa Produções Artísticas vivo, emprestou o espaço para rapaziada de uma banda de Rock fazer o cenário e o figurino para o show de estréia da banda.  Cada canto do pequeno espaço do Manga se viu invadido por uma simpática rapaziada da FAU, com figurinos e cortes de cabelos new wave,  que pintavam Flash Gordons, explosões de quadrinhos e costuravam terninhos parecidos com os do Talking Heads e B52. 
Lá pelas tantas o Chico chegou com uma novidade: havia descolado um painel outdoor perto do teatro para divulgar o show. A rapaziada da FAU havia feito um pequeno cartaz com motivos geométricos na gama dos alaranjados para divulgação do show. Como o painel outdoor é imenso criou-se um pequeno dilema: O que fazer com aquele painel?  No meio da madrugada, em um verdadeiro exercício de criação coletiva, começamos a compor nas pranchetas e paredes do ateliê um grande painel abstrato geométrico usando aqueles cartazetes. Preenchida a imensidão do painel outdoor pichamos no próprio outdoor o texto do cartaz.
O inusitado da solução chamou a atenção do proprietário da empresa de locação do painel outdoor que quis nos conhecer. Aproveitando a ocasião o Chico negociou o uso artístico de um painel da mesma empresa localizado na Rua da Consolação em frente à Praça Roosevelt e à Igreja da Consolação. Por um ano disporíamos do espaço para veicular nossas criações artísticas.
A necessidade de ocupar aquele espaço funcionou com um catalisador sobre nossas cabeças. Imediatamente formalizamos uma proposta de ocupação que foi aprovada pela empresa patrocinadora.
Entre nós, recebemos o painel como uma espécie de oferenda dos deuses. Como rege o rito das oferendas, decidimos partilhar o espaço com outros atores do cenário artístico de São Paulo. Tudo que havíamos visto, lido, pensado, feito, vivenciado e desejado no cenário cultural brasileiro palmou-se na forma do primeiro outdoor publicado.

 
De volta à rua. Agora não mais sozinho. O Manga Rosa se reinventou.

0 comentários: