domingo, 1 de novembro de 2009


quinta-feira, 29 de outubro de 2009


domingo, 25 de outubro de 2009

De mangas, de Rosas e de mil sóis.



Das Artes nas ruas de São Paulo

  
         Meados de da década de 70, era o século XX ainda; o cenário: a cidade de São Paulo, uma megalópole terceiro-mundista – não se falava ainda emergentes.
Traçado urbano confuso, ar e rios poluídos, trânsito caótico, alguns poucos quilômetros de metro construído, trens suburbanos e ônibus velhos que eram exemplos da sandice humana; uma das mais confusas ocupações do espaço visual. Uma tecnocracia embrenhada nas entranhas de uma ditadura militar, que entrevíamos mal nas brechas da censura aos jornalões.
A esclerose interna da governança militar, a crise econômica que se desenhava na crise do dólar e do petróleo,  abalou a prosperidade econômica da classe média, que conhecera o seu segundo surto de crescimento e mobilidade social e econômica justamente na segunda ditadura militar explícita que o país vivia.
Descontentamentos sociais?... Talvez? Mais provocado pela impossibilidade de pagar a próxima prestação do BNH, do que qualquer demonstração de ‘consciência social’ – jamais gostei desta expressão. De todo modo, greves das elites operárias sindicalizadas.
Os filhos da classe média ascendiam às universidades públicas através de escola e cursinhos pré-vestibulares particulares ou escolas técnicas de nível médio. O ensino fundamental e médio público que nunca foram lá essas coisas, dava visíveis sinais de  esclerose múltipla. Vive na UTI desde então. Destacavam-se alguns projetos pedagógicos: Escola de Aplicação da USP; Colégio Equipe, colégio Iadê.
Mas havia algo no ar. A música popular brasileira, cronista da vida social de todas as épocas, cantava a volta do irmão do Henfil, os muros e as pontes e a vontade de dançar. Jornais; muitos jornalecos, fanzines e revistas alternativas,: O pai de todos Pasquim, mas também, Movimento, Opinião, Versus; Voz Operária, Navilouca, Código, Almanaque, Cadernos de filosofia, Qrpo estranho, Boca, Balão, Cineolho, Arte em revista; eram muitos. Eram variados. Todas as opiniões e posturas políticas. Da esquerda conservadora stalinista, aos anarquistas libertários. Do esteticismo formalista à arte engajada. Poesia concreta e versos marginais. Ferreira Gullar publica Poema Sujo. Adélia Prado publica Corações disparados. Escândalo nas vanguardas: retorno aos versos. 
Política, literatura, cinema, artes plásticas. No MAC e na galeria da ‘Globo’, a jovem arte contemporânea, nas bienais a experimentação ao lado da história. Nos cines clubes da cidade o cinema novo e o cinema marginal. No MASP o festival internacional de cinema, ensinava o passado que desconhecíamos e nos atualizava com as novidades. Pasolini e Trakóvisky.  Muita experimentação, muita informação circulante.
Na praça Benedito Calixto no porão transformado em teatro a lira paulistana feazia soar a nova música. Nos morros da vila Madalena e da vila Beatriz, os ateliês dos jovens artistas universitários.
Pro-UNE, Pró-UBES e Pró-UMES. Estudantes secundaristas e universitários junto com a intelectualidade imitaram os operários do ABC e foram às ruas protestar. Protestos! Campanha pela anistia ampla geral e irrestrita. Borrachadas, cercos e invasões. A Polícia reagia e reprimia. Algumas prisões e mortes.
Os intelectuais e artistas exilados começam a voltar. Alguma coisa acontecia na esquina da Ipiranga com a São João. E perto de casa. Encontro Rápido com Ferreira Gullar. Procuro Mário Pedrosa: Queria saber sobres as Vanguardas Russas. 
Deu vontade de participar.
Passeatas? Vamos lá. Movimento estudantil: Grêmio; Pró-UBES. Pró-UNE. Escolho a facção: Libelu..
Artes. Vamos lá? Tinha já uma coleção de desenhos e fotos. Mas, aonde? As galerias e museus ancorados na mesmice modernosa. Os salões? Quem sabe? Na dúvida, a rua. Na ilha central da nova Av. Paulista, que acabara de passar por uma reformulação de design pelas mãos e olhos do arquiteto Calduro. Fiz minha primeira performance. O amigo fotografou.
Aprendi a primeira lição DADADuchampiana sobre as artes: sem o aval do circuito das artes, antes, durante e depois do feito, nada do que fizeres é arte.
Fui fazer performance no X Salão de Arte Contemporânea de Piracicaba. Lia "Assim falava Zaratustra" de Nietzsche e o Bailado do Deus Morto de Flávio de Carvalho. Juntei alhos com bugalhos e  pintei bandeiras brancas com frases tiradas dos dois livros. Espetei as bandeiras na praça central em frente a catedral da cidade. Esperava que as pessoas espontaneamente desfraldassem as bandeiras e lessem as frases. Fotografaria, com a polaroid as reações. A intenção era expor as fotos em um painel no salão. Não abdico das provocações nas ruas e recebo o aval do circuito, pensava ingenuamente. O primeiro a desfraldar uma das bandeiras, onde se lia: Deus é morto, foi o bispo da cidade. Fui expulso do salão e respondi inquérito policial. Aprendi a segunda lição sobre as artes: Não as use para  cutucar o espírito conservador da classe média brasileira, a reação será sempre violenta. As fotos do evento foram destruídas.

Quem sou eu

Carlos Alberto Dias
São Paulo, São Paulo, Brazil
Artista plástico, Educador e Filósofo
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