Carlos Alberto Dias
Filosofia & Arte
segunda-feira, 5 de março de 2012
sexta-feira, 2 de março de 2012
segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012
Lembranças de Rosas de mil soís, de Ventos e de Mangas
8. Ao ar livre II. O painel da Rebouças.
O frenesi criativo era tanto que reservamos a segunda placa que conquistamos, situada na Avenida Rebouças, também em São Paulo city, patrocinada pela JBS Murad Propaganda, para nossos experimentos Visio sensitivos.
As experimentações corriam soltas. Os limites traçados pelo ‘vermelho e amarelo’ se expandiam naturalmente. Relevos foram criados a partir de dobraduras de papel laminado, elementos tridimensionais foram introduzidos. Experimentos no limite da Op-art tentaram recriar movimentos virtuais a partir da percepção visual.
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Criamos uma zona de intersecção onde trabalhos indoor dialogavam com trabalhos outdoor. Trabalhos bidimensionais dialogavam com trabalhos tridimensionais.
Perseguindo os processos criativos coletivos introduzimos fragmentos de procedimentos projetuais. Empiricamente fizemos estudo das cores e das cores inexistentes: misturando sistematicamente e calculadamente os conteúdos retirados de 3 latas de 2 quilos de tintas gráfica, uma de cada uma das cores de referência - amarelo, ciano e magenta - produzimos um estoque variado de tintas nas gamas dos vermelhos, amarelos, azuis, verdes, laranjas e violáceo. Acrescentando branco às cores ampliamos o espectro de tons com os quais passamos a trabalhar. Realizamos estudos em escala das obras, recortando as formas coloridas em papelão duplex para ajustar formas e cores antes de executar a obra. Reinventamos para nós o princípio da combinação aleatória que produzia quase que automaticamente obras derivadas de outras obras.
O processo corria solto e parecia ter se estabilizado quando mais uma vez o acaso nos pôs em cheque. Nossa kairòs foi mais uma vez testada.
Um dos owers da JBS, André Murad, nos propôs comercializar a imagem de um de nossos painéis como logomarca para um dos produtos das linhas Círculos. Um fabricante sulista de fios e linhas.
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‘Cléa’ era o nome comercial do produto das linhas Círculo. “O Slogan “Cléa te amo”, que aparece no painel durante a instalação do ‘amarelo e violeta”, foi ali inscrito pela agência de publicidade como tentativa de detonar uma campanha viral, baseada na linguagem da “pichação” que nesta época já invadia São Paulo. Por alguma razão as negociações não prosperaram.
O episódio, no entanto, reacendeu em nós as discussões sobre as fronteiras entre arte e comunicação visual. De olho nesses limites, e com a intenção de volver aos caminhos da provocação discutíamos a necessidade de radicalizamos os aspectos contrainformacionais dos trabalhos. Zorzete trouxe a solução em sua série de desconstrução da imagem da bandeira do Brasil.

Ultrapassamos nossos próprios limites ressemantizando desconstrutivamente as imagens veiculadas.
De volta ao início só que agora mais sutil e esteticamente mai elaborado.
Lembranças de mil sois, de Mangas, de Rosas e de ventos.
7. Percurso visual sensitivo indoor
As negociações para realizar uma exposição do grupo no espaço cultural Carbono 14 foram realizadas principalmente pelo Zorzete, que além de suas produções artísticas funcionava como uma espécie de produtor executivo do grupo, e pelo Bassani. Só recentemente soube pela boca de Bassani que o Carbono 14 era capitaneado pelo filho e pelo neto do poeta Oswald de Andrade, curiosa coincidência.
Ambos trouxeram de Londres a experiência de espaços culturais multimídias. Tratava-se de um prédio de três ou quatro andares situado na rua 13 de maio, no coração do Bexiga - um bairro no centro de São Paulo, que na época se tornara centro de peregrinarão e encontro de jovens produtores culturais que se distribuíam pelos velhos botecos, pelos novos bares temáticos, pelo cine clube, ou mesmo pelas ruas e calçadas do bairro. Ao longo desse espaço se distribuíam salas de exibição de vídeo, de cinema, micro teatro, salas com videogames, pequenos cafés e bares, pequenos palcos para shows uma danceteria cujo palco também era usado para espetáculos experimentais e um terraço no qual se tinha uma bela vista noturna da cidade.
A exposição preparada para o Carbono14 foi uma experiências artística intensa e complexa. Para ela reunimos os principais experimentos visibilitas que havíamos realizados até aquele momento. Porém não queríamos uma simples exposição de objetos bi ou tridimensionais. Queríamos amplificar e exponenciar a experiência com o ‘penetrável’. Por isso a ocupação do espaço foi concebida como um percurso para a vivência visio sensitivo do espectador. Desde a entrada, no piso térreo do espaço, até a danceteria estímulos sensíveis conduziam o espectador por um percurso labiríntico no qual se distribuíam superfícies coloridas recortadas em diversos materiais, tais com plásticos, metaloides, tecidos, madeiras, papelões e papéis. Painéis, quadros, relevos, objetos e instalações interativas. As telas coloridas das máquinas de videogame Taito e os jogos de luzes da danceteria foram incorporados com elementos constitutivos da mostra.
O painel da série ‘contrastes cromáticos’, violeta e amarelo, foi transportado para o espaço indoor e reconfigurado como instalação-cenário para a performance do pessoal do Coro, grupo de dança que integrava o elenco do teatro oficina na época. Mais um trabalho crossmídia.
Cubos de cores suspensas foi outra instalação interativa concebida para integrar o percurso visual-sensitivo no Carbono 14. Seu suporte, fios de náilons tensionados e presos no teto e no piso do espaço, permitia o movimento dos cubos-cores a partir da interação com o movimento dos espectadores.
‘Cor a cor, corpo a corpo, corespiralam’.
Lembranças de Mangas, de sóis, de ventos e de Rosas
6. Combinação aleatória de cores.
O processo criativo tomava emprestado ao design os modos para o cálculo da forma. Essa preocupação estética, interceptada pela nostalgia do corpo coletivo, evolui naturalmente para a ideia de interatividade e participação ativa do espectador na obra. Obras tais como “Combinação aleatória de cores”, “Cubos de cores suspensas” ‘Percurso Visual Sensitivo’, “Sinalização (De)Formativa”, são filhos diretos, e diletos, do vermelho e amarelo. Shazam!
Nossos estudos se voltaram para os penetráveis de Hélio Oiticica. Estudamos alguns exemplos, lemos alguns textos do artista sobre este tipo de produção e partimos para a ação.
“Combinação Aleatória de cores”, ou simplesmente ‘penetrável’, foi o primeiro resultado desta nova etapa do processo criativo. Tratava-se de uma série de formas geométricas coloridas recortadas em grandes e grossas folhas de papelão ondulado pintados com tinta gráfica diluída em óleo de linhaça. De um lado das folhas pintamos cada forma com um das cores do espectro visível. Do outro uma variação de tons na gama dos alaranjados. Cada parte foi recortada independente de outras partes. Cada parte foi presa por argolas de cortina a canos suspensos. Formou-se assim uma espécie de quadro tridimensional, cuja profundidade foi, propositalmente, limitada a pouco mais de 50 centímetros. Era um quadro para ser visto. Mas era também um portal de passagem. Para ultrapassar o quadro, o espectador deveria agir. Isto é, deveria mudar as formas de lugar, fazendo-as correr lateralmente como peças de uma cortina. Cada passagem representaria uma nova combinação aleatória das cores dispostas previamente na obra. Apresentamos a obra no décimo salão de arte contemporânea de Santo André. A comissão organizadora e o júri não entenderam bem a proposta, por isso tivemos que declarar a obra como não concorrente a premiação. Além de nos comprometer a realizar a montagem e a desmontagem da obra, é claro. Montamos a obra no corredor de acesso ao espaço do salão. Meio fora, meio dentro. O espaço escolhido era também usado como local de acesso e passagem para os escritórios da administração pública da prefeitura de Santo André. Mesmo dentro de um tradicional salão não queríamos público segregado.
Neste trabalho estava presente a síntese das experiências realizadas em outdoor, combinação de superfícies coloridas, acrescido da interatividade direta do espectador com a obra. Novo caminho se desenhava.
Na segunda exibição do ‘penetrável’, realizada no Festival de performance realizado no SESC Pompéia, abandonamos a ideia de quadro e soltamos as peças no espaço usando a ideia de labirinto de passagem. Esta mesma formatação se repetiu na montagem deste trabalho na exposição/intervenção que criamos para o Espaço Carbono 14.
Lembranças de Rosas, de ventos, de Mangas e de Mil sóis.
5. Shazam!
A busca por uma poética coletiva, não se limitou às declarações de intenções publicadas na imprensa.
Enquanto organizávamos a agenda de exposição dos trabalhos recebidos para o projeto “Arte ao Ar Livre”, Bassani fez o layout para o terceiro painel outdoor a ser veiculado na consolação. Batizado por Bassani de Shazam, ele ficou conhecido entre nós como vermelho e amarelo.
Enquanto organizávamos a agenda de exposição dos trabalhos recebidos para o projeto “Arte ao Ar Livre”, Bassani fez o layout para o terceiro painel outdoor a ser veiculado na consolação. Batizado por Bassani de Shazam, ele ficou conhecido entre nós como vermelho e amarelo.
Este trabalho nos colocou diante das questões básicas da linguagem da comunicação visual urbana. Formas mínimas, cores primárias, alta visibilidade mesmo em condições precárias de luz ou de movimento do espectador, memorização da forma em tempo mínimo. Eliminação dos conteúdos semânticos. Comunicação de impacto. Com toques de ironia no título e nos borrões violáceos nos quatro cantos do painel, vermelho e amarelo definiu a linguagem com a qual prosseguiríamos as pesquisas poéticas daí por diante.
A sensação interna no grupo foi a de uma represa estourando seus diques. Shazam! O trabalho detonou em nós um intenso e vigoroso processo de criação onde as produções de cada membro do grupo se interceptavam e provocavam no outro uma resposta plástica imediata. Práticas reflexivas, ‘reflexão-na-ação’. Não sei quantificar quantos trabalhos foram produzidos, mas, posso afirmar com certeza que foram três anos de intensa e vertiginosa produção que, em vários sentidos, marcaram definitivamente nossos espíritos. O frenesi criativo era tanto que reservamos a segunda placa, situada na Avenida Rebouças, também em São Paulo city, patrocinada pela JBS Murad Propaganda, para nossos experimentos Visio sensitivos.
De algum modo vermelho e amarelo alinhou os trabalhos realizados pelo grupo em torno da perspectiva da sensibilidade. Cada trabalho produzido perseguia impactar a sensibilidade do espectador utilizando-se apenas de formas mínimas e cores lisas como elementos de linguagem. Empiricamente fizemos estudo das cores e das cores inexistentes: misturando sistematicamente e calculadamente os conteúdos retirados de 3 latas de 2 quilos de tintas gráfica, uma de cada uma das cores de referência - amarelo, ciano e magenta - produzimos um estoque variado de tintas nas gamas dos vermelhos, amarelos, azuis, verdes, laranjas e violáceo. Acrescentando branco às cores ampliamos o espectro de tons com os quais passamos a trabalhar. Cores e tons de cores lisas se combinavam e recombinavam em superfícies geometricamente delineadas para provocar o olhar.
Trabalhávamos no limite entre a comunicação visual urbana e as artes visuais. Somente o esvaziamento semântico dos trabalhos nos segurava nas fronteiras das artes. Cada obra produzida era fruto de uma apropriação de nacos do espaço urbano e a ele retornava como metônimo de uma urbe sempre impossível de ser percebida.
sábado, 11 de fevereiro de 2012
De Mangas, de Rosas, de Ventos e de Mil Sóis.
4. Nostalgia do corpo coletivo.
(Recomendamos a leituira das parte santeriores)
O grupo Manga Rosa tinha pretensões maiores do que a mera ironia com a arte contemporânea. Desnudar as contradições da arte contemporânea desvelando o modo pelo qual sua dependência do aval institucional aniquila os fundamentos romântico-idealistas da individualidade autoral, não era nossa finalidade última. Nossas preocupações iniciais gravitavam em torno da investigação por um processo de criação coletiva.
A segunda manifestação do circuito das artes propiciou a ocasião para tornarmos públicas essas intenções. Motivada pela repercussão alcançada pelo projeto “Arte ao Ar Livre”, a Revista Arte em São Paulo, idealizada pelo artista Paulo Baravelli, editada por Lisette Lagnado, hoje crítica e curadora, e a jornalista Marion Strecker, hoje executiva do UOL, nos convidou para apresentar os trabalhos do Grupo Manga Rosa.
O encontro com Baravelli registra uma passagem relevante, porque esclarecedora das significações que o jogo de contrainformação que propúnhamos estava construindo.
Ao nos receber, de modo gentil e receptivo a ponto de ceder várias páginas de sua revista para nosso pronunciamento, Baravelli não consegui esconder o espanto pelo fato de nos apresentarmos como grupo dotado inclusive de logomarca de identificação. O espanto de Baravelli revelava, nas entranhas do pensamento de um artista contemporâneo relevante, inclusive pela sua visão crítica, como o paradigma romântico-idealista - arte como produto de gênios individualizados - funciona como um impensado na cultura artística contemporânea. E este impensado era o núcleo que queríamos por em cheque mate.
Abrimos o artigo publicado na Revista Arte em São Paulo com a fotomontagem das cenas do avesso da placa de outdoor onde realizávamos o projeto ‘Arte ao Ar livre’. Pequena ironia gráfica que desconstruía, antecipadamente, as significações que o projeto assumia publicamente.
O artigo para a Arte em São Paulo foi produzido nos moldes dos grandes manifestos da arte moderna. Saiu de fato uma colagem de parágrafos, citações e declarações de intenções. Um verdadeiro pastiche. Pastiche o qual, visto de longe, significava, involuntariamente, a decadência das vanguardas modernas, senão da própria modernidade. Atualmente Jorge Bassani fez desse tema mote de reflexão.
Apesar da precariedade do artigo, alguns parágrafos traduziam a postura do Grupo Manga Rosa em relação ao cenário da produção artística e cultural da época. Vale uma citação de trechos do artigo:
Desde o início, rompendo radicalmente com a obra de arte no seu sentido tradicional, exercíamos as disciplinas da pintura e do desenho tendo como motor a experimentação primeira da descoberta de uma criança. (...)
Não havia habilidade manual em jogo, e sim a utilização de energia transformada em trabalho.(...)
Tal modo de produção implicou num procedimento coletivo diante dos trabalhos, eliminando assim dois males da tradição, que se perpetuavam na produção da arte naquela época, desconsiderando os postulados básicos da arte contemporânea. Primeiro eliminou-se a criação de "objets d'art" e em seguida afastou-se por completo a figura do artista como ser único.
O grupo recorreu ao estudo da estética do ponto de vista do progresso dos meios técnicos de produção e reprodução de imagens, para poder situar sua produção estética em relação aos momentos em que a arte contemporânea questionava profundamente a si própria e sua função social.
Após a realização de uma análise sobre a informação circulante e dos canais utilizados pelo sistema para sua propaganda, surgiu o projeto "ARTE AO AR LIVRE". (Arte em São Paulo, vol 6, 1986)
Com esta mistura de jargões retirados dos manifestos das vanguardas modernas com termos retirados da crítica semiosociológica à modernidade, nos apresentávamos não como demolidores de convenções, ou inovadores estéticos, mas sim como produtores de contrainformação, com intenções contraculturais. Confusamente queríamos ser identificados com aqueles espíritos renovadores que na história recente das vanguardas modernas e contemporâneas propunham a crítica ao individualismo, como fonte primária da criação artística, e ao mesmo tempo elaboravam as condições para o retorno à produção coletiva das artes. Namorávamos a ideia da socialização da produção artística, por isso polemizávamos com o circuito das artes.
Nossas fontes de referências mais imediatas incluíam Alan Kaprow, inventor do happening, as experiências multimídia do grupo Plan-K, as experiências do Teatro Oficina, As experiências de teatro de rua, derivadas do Teatro do Oprimido de Augusto Boal, o discurso contracultural de Décio Pignatari, as experiências estéticas e os textos reflexivos de Hélio Oiticica. Juntamos a essa feijoada intelectual a crítica semiosociológica da cultura de Jean Baudrillard.
As fontes mais difusas eram os ecos dos discursos sobre aproximação da arte com a vida, de socialização da arte, do fim da separação entre público e artista que circulam desde o dadaísmo, as vanguardas russas e o surrealismo. Enfim todas as experiências estéticas que preconizaram o fim do sistema de arte burguês, fundado na criação individual, e o surgimento de um sistema de arte coletivo nos interessavam. Nostalgia do corpo coletivo, como dizia Ligia Clark.
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Contribuição de Maíra Vaz Valente











