quinta-feira, 17 de maio de 2012

segunda-feira, 16 de abril de 2012

Meditações cartesianas

Dizem que nasci. Não me lembro do fato em questão. Se não me lembro do fato será mesmo que nasci?  Afinal se, cartesianamente, sou o critério universal da verdade como posso ter certeza de ter nascido se não me lembro sequer para duvidar do fato que nasci.
Tá bom! Não me lembro de ter nascido, portanto talvez seja eu apenas a lembrança de um gênio maligno que me fez no mundo só para se divertir.
No entanto me lembro de muitas coisas. Lembro-me claramente do dia em que a Arte morreu.
Eu vi! Eu tava lá. Não duvido nem por um instante daquilo que eu vi com esses zoios que a terra havéra de cumê. Foi na mesma tarde erma e de raros ventos na qual Cacaso enrabou a cabritinha, mas isso não vem ao caso. O caso é que a Arte morreu e eu tava lá pra me lembrar do fato, apesar de não me lembrar de ter nascido para poder lembrar.
Estávamos todos sentados em uma roda a cantar e a brincar quando chegou a boa professora com seus saltos altos, meias finas e vestido de seda estampada. Chegou com sua fala mansa.  No começo ela até que tentou entrar na roda. Mas era visível seu incomodo. O Salto, a meia e o vestido atrapalhavam um pouco. Mas o que atrapalhava mesmo era sua falta de percepção dos ritmos. Ela atravessava o samba, não lembrava o enredo. (Será que ela se lembrava de ter nascido?).
Foi então que naquela tarde erma e de raros ventos em que Cacaso enrabou a cabritinha que a professorinha resolveu tomar conta do jogo e mudar as regras.
Sua decisão não foi um ato isolado, foi amplamente discutida na reunião pedagógica com a orientadora educacional, a coordenação pedagógica e a direção da escola, depois que nossa professorinha se queixou de estar perdendo o comando da turma. Afinal nós só queríamos brincar, disse ela em tom lamentoso. A sábia orientadora pedagógica, doutora em psicopedagogia, logo recomendou o remédio: domina seu aluno quem domina seu corpo. Coloque-os sentados em fila com a espinha ereta, olhando para a nuca do colega. Assuma a frente da sala e fale sempre com voz firme. Os professores admirados de tanta sabedoria balançavam a cabeça em silente concordância, enquanto preenchiam mais um formulário de planejamento.
Naquela erma tarde de raros ventos na qual Cacaso enrabou a cabritinha, a professorinha, que nunca duvidou de ter nascido, apesar de também não se lembrar do fato, escolheu seu melhor salto de melhor couro envernizado, suas meias finas de suave pressão para evitar varizes, seu vestido de seda estampada e marchou determinada a tomar as rédeas de sua turma. Afinal eles já estavam crescidos e precisavam aprender as regras da vida, que não é brincadeira não!
Naquela tarde erma e de raros ventos, ouvindo ao longe os berros da cabritinha, estranhamos a sala modificada.  No lugar de nossa roda pintada no chão agora haviam carteiras enfileiradas uma atrás da outra. Logo chegou a professorinha chegou, postou-se em frente à turma e começou seu discurso sem ritmo e sem cadência, mas prenhe de eloquências:
- Vocês agora já são grandes. Já são quase adultos, não estão aqui para brincar. Precisam aprender... Precisam aprender que a vida não é brincadeira...
O discurso prosseguiu por mais uma hora antes da professora com seus saltos, meias finas e vestido de seda começasse a escrever a lição na lousa. Confesso que não me lembro de que mais ela falou naquela hora, hora e meia... Nem tão pouco da lição que ela nos ensinou.  Também pudera, senão me lembro sequer que nasci, como posso lembrar do resto que vivi!

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

Lembranças de Rosas de mil soís, de Ventos e de Mangas

 8.     Ao ar livre II. O painel da Rebouças.
O frenesi criativo era tanto que reservamos a segunda placa que conquistamos, situada na Avenida Rebouças, também em São Paulo city, patrocinada pela JBS Murad Propaganda, para nossos experimentos Visio sensitivos.
As experimentações corriam soltas. Os limites traçados pelo ‘vermelho e amarelo’ se expandiam naturalmente. Relevos foram criados a partir de dobraduras de papel laminado, elementos tridimensionais foram introduzidos. Experimentos no limite da Op-art tentaram recriar movimentos virtuais a partir da percepção visual.


 



Criamos uma zona de intersecção onde trabalhos indoor dialogavam com trabalhos outdoor. Trabalhos bidimensionais dialogavam com trabalhos tridimensionais.


 




Perseguindo os processos criativos coletivos introduzimos fragmentos de procedimentos projetuais. Empiricamente fizemos estudo das cores e das cores inexistentes: misturando sistematicamente e calculadamente os conteúdos retirados de 3 latas de 2 quilos de tintas gráfica, uma de cada uma das cores de referência - amarelo, ciano e magenta - produzimos um estoque variado de tintas nas gamas dos vermelhos, amarelos, azuis, verdes, laranjas e violáceo. Acrescentando branco às cores ampliamos o espectro de tons com os quais passamos a trabalhar. Realizamos estudos em escala das obras, recortando as formas coloridas em papelão duplex para ajustar formas e cores antes de executar a obra. Reinventamos para nós o princípio da combinação aleatória que produzia quase que automaticamente obras derivadas de outras obras.  


                                               

 O processo corria solto e parecia ter se estabilizado quando mais uma vez o acaso nos pôs em cheque. Nossa kairòs foi mais uma vez testada.
Um dos owers da JBS, André Murad, nos propôs comercializar a imagem de um de nossos painéis como logomarca para um dos produtos das linhas Círculos. Um fabricante sulista de fios e linhas.

 

 

 ‘Cléa’ era o nome comercial do produto das linhas Círculo. “O Slogan “Cléa te amo”, que aparece no painel durante a instalação do ‘amarelo e violeta”, foi ali inscrito pela agência de publicidade como tentativa de detonar uma campanha viral, baseada na linguagem da “pichação” que nesta época já invadia São Paulo. Por alguma razão as negociações não prosperaram.
O episódio, no entanto, reacendeu em nós as discussões sobre as fronteiras entre arte e comunicação visual. De olho nesses limites, e com a intenção de volver aos caminhos da provocação discutíamos a necessidade de radicalizamos os aspectos contrainformacionais dos trabalhos. Zorzete trouxe a solução em sua série de desconstrução da imagem da bandeira do Brasil.





Ultrapassamos nossos próprios limites ressemantizando desconstrutivamente as imagens veiculadas.
De volta ao início só que agora mais sutil e esteticamente mai elaborado.

Lembranças de mil sois, de Mangas, de Rosas e de ventos.

7.     Percurso visual sensitivo indoor
As negociações para realizar uma exposição do grupo no espaço cultural Carbono 14 foram realizadas principalmente pelo Zorzete, que além de suas produções artísticas funcionava como uma espécie de produtor executivo do grupo, e pelo Bassani. Só recentemente soube pela boca de Bassani que o Carbono 14 era capitaneado pelo filho e pelo neto do poeta Oswald de Andrade, curiosa coincidência.
Ambos trouxeram de Londres a experiência de espaços culturais multimídias. Tratava-se de um prédio de três ou quatro andares situado na rua 13 de maio, no coração do Bexiga - um bairro no centro de São Paulo, que na época se tornara centro de peregrinarão e encontro de jovens produtores culturais que se distribuíam pelos velhos botecos, pelos novos bares temáticos, pelo cine clube, ou mesmo pelas ruas e calçadas do bairro. Ao longo desse espaço se distribuíam salas de exibição de vídeo, de cinema, micro teatro, salas com videogames, pequenos cafés e bares, pequenos palcos para shows uma danceteria cujo palco também era usado para espetáculos experimentais e um terraço no qual se tinha uma bela vista noturna da cidade.
A exposição preparada para o Carbono14 foi uma experiências artística intensa e complexa. Para ela reunimos os principais experimentos visibilitas que havíamos realizados até aquele momento. Porém não queríamos uma simples exposição de objetos bi ou tridimensionais. Queríamos amplificar e exponenciar a experiência com o ‘penetrável’. Por isso a ocupação do espaço foi concebida como um percurso para a vivência visio sensitivo do espectador. Desde a entrada, no piso térreo do espaço, até a danceteria estímulos sensíveis conduziam o espectador por um percurso labiríntico no qual se distribuíam superfícies coloridas recortadas em diversos materiais, tais com plásticos, metaloides, tecidos, madeiras, papelões e papéis. Painéis, quadros, relevos, objetos e instalações interativas. As telas coloridas das máquinas de videogame Taito e os jogos de luzes da danceteria foram incorporados com elementos constitutivos da mostra.
   





O painel da série ‘contrastes cromáticos’, violeta e amarelo, foi transportado para o espaço indoor e reconfigurado como instalação-cenário para a performance do pessoal do Coro, grupo de dança que integrava o elenco do teatro oficina na época. Mais um trabalho crossmídia.



 
 

Cubos de cores suspensas foi outra instalação interativa concebida para integrar o percurso visual-sensitivo no Carbono 14. Seu suporte, fios de náilons tensionados e presos no teto e no piso do espaço, permitia o movimento dos cubos-cores a partir da interação com o movimento dos espectadores.


 
 
 ‘Cor a cor, corpo a corpo, corespiralam’.

 

Lembranças de Mangas, de sóis, de ventos e de Rosas

6.     Combinação aleatória de cores.
O processo criativo tomava emprestado ao design os modos para o cálculo da forma. Essa preocupação estética, interceptada pela nostalgia do corpo coletivo, evolui naturalmente para a ideia de interatividade e participação ativa do espectador na obra. Obras tais como “Combinação aleatória de cores”, “Cubos de cores suspensas” ‘Percurso Visual Sensitivo’, “Sinalização (De)Formativa”,  são filhos diretos, e diletos, do vermelho e amarelo. Shazam!

O surgimento das propostas de instalações foi de certo modo uma decorrência lógica dentro do processo criativo vivenciado pelo grupo. As dimensões dos painéis outdoor (27m2) já apontavam para a espacialização das cores. Passeando por entre as folhas e objetos pintados pendentes do teto do ateliê durante a execução dos painéis propiciou a vivência antecipada do ‘penetrável’ e do ‘percurso visual-sensitivo’. Não demorou muito para percebermos que o espectador podia ser parte integrante da obra. Uma de suas possibilidades constitutivas.  




Nossos estudos se voltaram para os penetráveis de Hélio Oiticica. Estudamos alguns exemplos, lemos alguns textos do artista sobre este tipo de produção e partimos para a ação.
“Combinação Aleatória de cores”, ou simplesmente ‘penetrável’, foi o primeiro resultado desta nova etapa do processo criativo. Tratava-se de uma série de formas geométricas coloridas recortadas em grandes e grossas folhas de papelão ondulado pintados com tinta gráfica diluída em óleo de linhaça. De um lado das folhas pintamos cada forma com um das cores do espectro visível. Do outro uma variação de tons na gama dos alaranjados.  Cada parte foi recortada independente de outras partes. Cada parte foi presa por argolas de cortina a canos suspensos. Formou-se assim uma espécie de quadro tridimensional, cuja profundidade foi, propositalmente, limitada a pouco mais de 50 centímetros. Era um quadro para ser visto. Mas era também um portal de passagem. Para ultrapassar o quadro, o espectador deveria agir. Isto é, deveria mudar as formas de lugar, fazendo-as correr lateralmente como peças de uma cortina. Cada passagem representaria uma nova combinação aleatória das cores dispostas previamente na obra. Apresentamos a obra no décimo salão de arte contemporânea de Santo André. A comissão organizadora e o júri não entenderam bem a proposta, por isso tivemos que declarar a obra como não concorrente a premiação. Além de nos comprometer a realizar a montagem e a desmontagem da obra, é claro. Montamos a obra no corredor de acesso ao espaço do salão. Meio fora, meio dentro. O espaço escolhido era também usado como local de acesso e passagem para os escritórios da administração pública da prefeitura de Santo André. Mesmo dentro de um tradicional salão não queríamos público segregado.



Neste trabalho estava presente a síntese das experiências realizadas em outdoor, combinação de superfícies coloridas, acrescido da interatividade direta do espectador com a obra. Novo caminho se desenhava.
Na segunda exibição do ‘penetrável’, realizada no Festival de performance realizado no SESC Pompéia, abandonamos a ideia de quadro e soltamos as peças no espaço usando a ideia de labirinto de passagem. Esta mesma formatação se repetiu na montagem deste trabalho na exposição/intervenção que criamos para o Espaço Carbono 14.



Lembranças de Rosas, de ventos, de Mangas e de Mil sóis.


5.     Shazam!
A busca por uma poética coletiva, não se limitou às declarações de intenções publicadas na imprensa. 
 Enquanto organizávamos a agenda de exposição dos trabalhos recebidos para o projeto “Arte ao Ar Livre”, Bassani fez o layout para o terceiro painel outdoor a ser veiculado na consolação. Batizado por Bassani de Shazam, ele ficou conhecido entre nós como vermelho e amarelo.


 

Este trabalho nos colocou diante das questões básicas da linguagem da comunicação visual urbana. Formas mínimas, cores primárias, alta visibilidade mesmo em condições precárias de luz ou de movimento do espectador, memorização da forma em tempo mínimo. Eliminação dos conteúdos semânticos. Comunicação de impacto. Com toques de ironia no título e nos borrões violáceos nos quatro cantos do painel, vermelho e amarelo definiu a linguagem com a qual prosseguiríamos as pesquisas poéticas daí por diante.
 A sensação interna no grupo foi a de uma represa estourando seus diques. Shazam! O trabalho detonou em nós um intenso e vigoroso processo de criação onde as produções de cada membro do grupo se interceptavam e provocavam no outro uma resposta plástica imediata. Práticas reflexivas, ‘reflexão-na-ação’. Não sei quantificar quantos trabalhos foram produzidos, mas, posso afirmar com certeza que foram três anos de intensa e vertiginosa produção que, em vários sentidos, marcaram definitivamente nossos espíritos. O frenesi criativo era tanto que reservamos a segunda placa, situada na Avenida Rebouças, também em São Paulo city, patrocinada pela JBS Murad Propaganda, para nossos experimentos Visio sensitivos.
De algum modo vermelho e amarelo alinhou os trabalhos realizados pelo grupo em torno da perspectiva da sensibilidade. Cada trabalho produzido perseguia impactar a sensibilidade do espectador utilizando-se apenas de formas mínimas e cores lisas como elementos de linguagem.  Empiricamente fizemos estudo das cores e das cores inexistentes: misturando sistematicamente e calculadamente os conteúdos retirados de 3 latas de 2 quilos de tintas gráfica, uma de cada uma das cores de referência - amarelo, ciano e magenta - produzimos um estoque variado de tintas nas gamas dos vermelhos, amarelos, azuis, verdes, laranjas e violáceo. Acrescentando branco às cores ampliamos o espectro de tons com os quais passamos a trabalhar. Cores e tons de cores lisas se combinavam e recombinavam em superfícies geometricamente delineadas para provocar o olhar.




Trabalhávamos no limite entre a comunicação visual urbana e as artes visuais. Somente o esvaziamento semântico dos trabalhos nos segurava nas fronteiras das artes. Cada obra produzida era fruto de uma apropriação de nacos do espaço urbano e a ele retornava como metônimo de uma urbe sempre impossível de ser percebida.